Sou apaixonada por Cacau e Chocolate brasileiro. Minha viagem é apresentar iniciativas brasileiras de derivados de cacau, chocolates produzidos no Brasil.
Me apresento como Especialista em leitura estratégica, curadoria e construção de valor no ecossistema do chocolate, das experiências gastronômicas e dos alimentos de origem.
Festa de Iemanjá, Cacau e Chocolate (Iemanjá Party, Cocoa and Chocolate)
Tenho, por meta e trajetória profissional, um olhar atento para as múltiplas expressões culturais do Brasil — especialmente aquelas que revelam como cultura, economia, território e experiência se articulam.
Neste ano, vivi pela primeira vez, presencialmente, a Festa de Iemanjá, em Salvador. Cheguei ainda de madrugada ao bairro do Rio Vermelho para acompanhar a dinâmica do dia 2 de fevereiro.
Mais do que um evento de fé — que é, e deve ser sempre respeitado como o alicerce desta celebração — o que me chamou atenção foi a força do ecossistema que se organiza ao redor da festa: música, gastronomia, turismo, serviços, pequenos empreendedores, experiências culturais e diferentes formas de participação.
É, de fato, um mar de possibilidades construído a partir de uma mesma força e simbolismo.
Ao buscar informações sobre a história do festejo, encontrei o registro de que a celebração está associada a um período de escassez de peixes vivido por pescadores locais, quando foram feitas homenagens e pedidos de abundância — e, a partir daí, consolidou-se um ritual anual de agradecimento e esperança.
Foi a partir desse ponto que surgiu a analogia que me convida hoje à reflexão sobre o cacau e o chocolate brasileiros.
O que a Festa de Iemanjá me fez pensar sobre o nosso cacau e o nosso chocolate
Assim como a festa abriga múltiplas formas legítimas de vivenciar um mesmo acontecimento — espiritual, cultural, gastronômico, turístico, social — o cacau brasileiro também já sustenta hoje uma diversidade real de modelos de uso, negócios e experiências.
Atualmente, no Brasil, é possível observar com mais clareza:
produtores que direcionam parte da produção para cacau de qualidade superior, voltado ao chocolate bean to bar;
iniciativas estruturadas de turismo de origem e experiências nas fazendas;
produção de derivados de cacau com maior valor agregado;
eventos, como os que eu mesma realizo através da Expedição Cacau e Chocolate do Brasil
aplicação de derivados de cacau fino na gastronomia, gelateria, cervejaria artesanal, destilarias, entre outros negócios muito bacanas;
e, simultaneamente, a manutenção da venda de parte da produção para o mercado convencional de cacau (commodity), o que ainda é uma composição absolutamente normal dentro da realidade produtiva brasileira.
Esse movimento é positivo e necessário. Ele amplia renda, diversifica riscos e fortalece o território.
O ponto sensível do momento atual
Ao mesmo tempo, o setor vive um momento delicado.
Circulam, neste início de 2026, informações sobre a entrada de grande volume de cacau importado do continente africano, com desembarque pelo Porto de Ilhéus — em volumes e valores por quilo que pressionam fortemente o mercado interno.
Esse cenário traz dois alertas importantes para o setor:
risco real de concorrência desleal para produtores nacionais que já operam com custos elevados e exigências crescentes de qualidade;
e necessidade permanente de atenção aos aspectos sanitários e fitossanitários, fundamentais para a proteção das regiões produtoras brasileiras.
O que, objetivamente, o Brasil já construiu
Hoje, o Brasil reúne condições muito sólidas:
temos volume produtivo e capacidade de expansão da produção e consumo de cacau e de chocolates;
temos qualidade reconhecida em diferentes territórios;
temos uma curva consistente de marcas brasileiras premiadas internacionalmente no chocolate bean to bar;
e, sobretudo, temos um campo fértil de aplicações, formulações, experiências de consumo e projetos de hospitalidade e turismo baseados no cacau e no chocolate nacionais.
Ou seja: já existe abundância de possibilidades.
A analogia com a Festa de Iemanjá
A beleza da Festa de Iemanjá está justamente na convivência harmônica de múltiplos atores — pescadores, moradores, turistas, hotéis, transporte, floriculturas, gastronomia, música, empreendedores e, acima de tudo, a fé.
Cada pessoa participa da forma que faz sentido para si.
No universo do cacau e do chocolate brasileiros, o cenário também já permite escolhas diversas:
podemos consumir chocolate por prazer, por saúde, por curiosidade sensorial, por vínculo cultural, por turismo de experiência ou por compromisso com cadeias produtivas mais justas.
O ponto central — e aqui deixo a reflexão — é que nós, como consumidores, profissionais, marcas e instituições, já podemos (e precisamos) fazer uma escolha consciente:
Vou apoiar um produtor e uma cadeia produtiva brasileira e que é um motor na economia do pais?
ou vou fortalecer marcas que utilizam majoritariamente cacau importado de forma desleal, enquanto os nossos produtores enfrentam dificuldades para sustentar seus sistemas produtivos?
Hoje, essa informação é acessível sobre o "quem é quem" das marcas. Basta buscar.
Os que produzem com cacau sustentável brasileiro estão constantemente nas minhas postagens e nas mesas dos meus eventos e experiências. Se não encontrarem, é só me pedir...
Assim como não há concorrência estrangeira capaz de substituir a força simbólica e cultural da Festa de Iemanjá, acredito que o cacau brasileiro também já ocupa um lugar próprio — territorial, cultural e produtivo — que precisa ser protegido, fortalecido e valorizado.
Um viva ao nosso cacau e ao nosso chocolate!
Que a renovação, a diversidade de caminhos e a abundância estejam sempre presentes para quem produz, transforma e constrói, todos os dias, a história do cacau e do Chocolate no Brasil. Espero ter contribuído com um tanto de reflexões necessárias para este momento tão específico na Cadeia produtiva de Cacau ao Chocolate do Brasil.
Juliana Recuero Ustra
Chocolate no Brasil
em 13/02/2026
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Siga: @chocolatenobrasil
Ouça a playlist da Expedição Cacau e Chocolate do Brasil no Spotify.
I have made it my professional goal and path to maintain a close and attentive look at the many cultural expressions of Brazil—especially those that reveal how culture, economy, territory, and experience come together.
This year, I experienced the Festa de Iemanjá in Salvador in person for the first time. I arrived before dawn in the Rio Vermelho neighborhood to follow the dynamics of February 2.
More than an event of faith—which it is, and which must always be respected as the foundation of this celebration—what truly caught my attention was the strength of the ecosystem that forms around the festival: music, gastronomy, tourism, services, small entrepreneurs, cultural experiences, and many different ways of participating. It is, in fact, a sea of possibilities built from the same symbolic force and meaning.
While researching the history of the celebration, I found records indicating that it is associated with a period of fish scarcity experienced by local fishermen, when offerings and prayers for abundance were made—and, from that moment on, an annual ritual of gratitude and hope was established.
It was from this point that the analogy emerged that now invites me to reflect on Brazilian cocoa and chocolate.
What the Festa de Iemanjá made me reflect on about our cocoa and our chocolate
Just as the festival embraces multiple legitimate ways of experiencing the same event—spiritual, cultural, gastronomic, touristic, and social—Brazilian cocoa today also supports a real diversity of uses, business models, and experiences.
Currently in Brazil, we can more clearly observe:
producers who allocate part of their production to higher-quality cocoa aimed at bean-to-bar chocolate;
structured initiatives in origin-based tourism and on-farm experiences;
the production of higher value-added cocoa derivatives;
events, such as those I personally organize through the Expedição Cacau e Chocolate do Brasil;
the use of fine cocoa derivatives in gastronomy, gelato making, craft brewing, distilleries, and many other inspiring businesses;
and, at the same time, the continued sale of part of the production to the conventional cocoa market (commodity), which remains an entirely normal composition within the Brazilian production reality.
This movement is positive and necessary. It increases income, diversifies risks, and strengthens territories.
A sensitive moment for the sector
At the same time, the sector is going through a delicate period.
At the beginning of 2026, information has been circulating about the arrival of large volumes of cocoa imported from the African continent, unloaded through the Port of Ilhéus—at volumes and prices per kilogram that strongly pressure the domestic market.
This scenario raises two important alerts for the sector:
a real risk of unfair competition for Brazilian producers, who already operate with high costs and increasingly demanding quality standards;
and the constant need for attention to sanitary and phytosanitary aspects, which are fundamental for protecting Brazil’s producing regions.
What Brazil has objectively built
Today, Brazil has very solid foundations:
we have production volume and the capacity to expand both cocoa and chocolate production and consumption;
we have recognized quality in different territories;
we have a consistent and growing curve of Brazilian brands being internationally awarded in the bean-to-bar chocolate segment;
and, above all, we have a fertile field of applications, formulations, consumption experiences, and hospitality and tourism projects based on Brazilian cocoa and chocolate.
In other words, there is already an abundance of possibilities.
The analogy with the Festa de Iemanjá
The beauty of the Festa de Iemanjá lies precisely in the harmonious coexistence of multiple actors—fishermen, residents, tourists, hotels, transport services, flower sellers, gastronomy, music, entrepreneurs, and, above all, faith.
Each person participates in the way that makes sense to them.
In the universe of Brazilian cocoa and chocolate, the scenario also now allows for diverse choices: we can consume chocolate for pleasure, for health, for sensory curiosity, for cultural connection, for experiential tourism, or out of commitment to fairer production chains.
The central point—and this is where I leave my reflection—is that we, as consumers, professionals, brands, and institutions, can (and must) make a conscious choice:
Will I support a Brazilian producer and a Brazilian production chain that is a real engine of the country’s economy?
Or will I strengthen brands that rely predominantly on imported cocoa in an unfair way, while our own producers struggle to sustain their production systems?
Today, information about “who is who” in the market is accessible. You only need to look for it.
Those who produce with sustainable Brazilian cocoa are constantly present in my posts and at the tables of my events and experiences. And if you cannot find them, just ask me.
Just as no foreign competition can replace the symbolic and cultural strength of the Festa de Iemanjá, I believe that Brazilian cocoa has already established its own place—territorial, cultural, and productive—which must be protected, strengthened, and valued.
Long live our cocoa and our chocolate!
May renewal, diversity of paths, and abundance always be present for those who produce, transform, and build—every day—the history of cocoa and chocolate in Brazil. I hope I have contributed some necessary reflections for this very specific moment in Brazil’s cocoa-to-chocolate production chain.
Juliana Recuero Ustra Chocolate no Brasil February 13, 2026
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