Carnaval, Cacau e Chocolate (Carnival, Cocoa and Chocolate)




Além de começarem com C, temos muito mais em comum.

No Brasil, parece existir uma divisão quase automática:
quem ama o Carnaval — e quem foge dele.

Não vou entrar aqui nas razões de cada um dos perfis, pois não é meu foco de discussão.
O que me interessa, de verdade, é observar o sistema que se constrói ao redor desta que é uma das maiores experiências culturais do país.

Porque o Carnaval não é um evento.
Ele é um ecossistema.

Tudo muda neste período, deslocam-se pessoas, aumenta o fluxo turístico, ocupação hoteleira, serviços diversos, alimentação, moda, música, cenografia, figurino, design, logística, mídia, economia criativa — e, sobretudo, trabalho especializado.

Existe uma cadeia inteira operando para que, durante poucos dias, o país entregue pontualmente mais cor, brilho, textura, ritmo, identidade e memória e para àquele primeiro grupo: diversão.

E quando penso nos adereços, por exemplo — sem qualquer romantização — eu lembro imediatamente da base produtiva invisível que sustenta esse espetáculo: são muitos artesãos, fornecedores de miçangas, de tecidos, de aviamentos, de tintas, de bordados, de impressão, de costura, de montagem, de criação e de finalização.

Nada ali é improviso.
É um projeto desenhado e realizado por muitos meses, para que se garanta a superação ao sucesso do ano anterior. 

E é justamente nesse ponto que eu paro — e penso no cacau e no chocolate do Brasil.

O que isso tem a ver com chocolate?

Mais do que parece.

Preste atenção nas similaridades, entre a cadeia produtiva do Carnaval, do Cacau e do Chocolate: 

Lá temos adereços, brilhos, aplicações e camadas de cores?
Aqui temos Inclusões, formulações, sensações, sabores, notas, cores e outros elementos sensoriais.

Onde estão os abadás, fantasias e figurinos?
Aqui vemos embalagens, rótulos, caixas, laços, cores e toda arquitetura visual de marcas

Para Escolas de samba?
Aqui Marcas de chocolate.

Quando falamos de Alas?
Aqui podemos pensar em Edições Limitadas de chocolates especiais ou ainda safras de cacau com características únicas.

Lá temos Artesãos do Carnaval?
Aqui temos Produtores de cacau, produtores de chocolate, confeiteiros.

Quando pensamos na delimitação de Território e inspiração dos enredos?
Nem penso em outra coisa senão o Terroir do cacau.

Se escutamos o Samba-enredo?
Aqui podemos pensar que cada marca tem sua Narrativa, trajetória, história. 

Nada disso é coincidência.

Tanto no Carnaval quanto no chocolate, o que sustenta o valor não é o espetáculo final ou uma barra. É a inteligência organizada de cada uma dessas cadeias produtivas.  

E aqui eu faço questão de ser direta:


"Cacau e chocolate do Brasil são muito mais do que alimentos. 
São infraestrutura de um patrimônio cultural e uma força econômica para o Brasil."


O país tem cerca de 90 mil produtores de cacau. - leiam esta frase com atenção.

E isso nos obriga, inclusive, a uma reflexão que raramente entra no debate estratégico das marcas: 

"Que sentido faz importar cacau de outros países, enquanto fragilizamos o valor do próprio cacau brasileiro no mercado interno?" - leiam as notícias atuais sobre cacau importado em fevereiro de 2026.

Esta é uma discussão de cadeia, de reputação e de garantia da sustentabilidade da cadeia em seus pilares principais (econômico, ambiental e social). Apenas lembrando: quando o mercado fixa um valor desleal na arroba de cacau, são os 90 mil produtores brasileiros que perdem o sono, passam apertos financeiros graves e correndo o risco de sucumbir seus negócios.

Vamos adiante nesta reflexão: o Brasil não é potente apenas porque produz cacau. Ele é potente porque sustenta um dos maiores patrimônios alimentares do planeta.

E aqui eu falo com base técnica, a partir de uma rápida pesquisa: 

– existem pelo menos 557 espécies de árvores frutíferas utilizadas como alimento no Brasil (considerando espécies nativas e exóticas documentadas em estudos etnobotânicos);

– aproximadamente 448 dessas espécies são nativas;

– projetos públicos de sociobiodiversidade já reconhecem dezenas de frutas, castanhas, sementes, hortaliças e espécies alimentares nativas com potencial direto de cadeia produtiva.

Quando olhamos por bioma — Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica, Caatinga, Pantanal e Pampa — os números se multiplicam em: frutas, sementes oleaginosas, castanhas, plantas aromáticas, espécies condimentares.

Não estamos falando de uma informação que pode ser apenas uma curiosidade botânica. Estamos falando de base real para inovação alimentar, gastronômica e sensorial, além de ser um alicerce de inúmeros negócios e sem dúvida, para experiências incríveis.




O Brasil possui uma das maiores biodiversidades alimentares do planeta, com dezenas de milhares de espécies vegetais, centenas de frutas com uso alimentar, dezenas de castanhas e sementes, e uma enorme diversidade de plantas aromáticas e condimentos distribuídos por todos os biomas.

Em termos de chocolate, isso é brutalmente impactante e gostaria que pensássemos juntos o quanto é estratégico poder usufruir de ingredientes que temos em diversidade e abundância em nosso país.

Porque significa que o Brasil não tem apenas cacau. Nosso país tem: cores, acidez, dulçor, aromas, óleos, especiarias, resinas, sementes, frutas frescas, frutas secas, infusões e extratos possíveis para construir: uma linguagem sensorial impressionante e genuinamente brasileira para o chocolate.

Tal qual no Carnaval, onde vemos combinações quase infinitas de materiais, texturas e cores, o Brasil oferece um repertório praticamente inesgotável para formulações autorais.

E aqui vai uma provocação que sempre faço às marcas: "Quanto do que está no seu produto, hoje, realmente movimenta a economia alimentar do Brasil?"

Porque existe uma diferença enorme entre usar o discurso da brasilidade —
e ativar, de fato, o patrimônio alimentar brasileiro como estratégia de produto.



O Carnaval me fez, mais uma vez, observar o ecossistema que se organiza ao redor dele.

E a semelhança com o universo do cacau e do chocolate brasileiro é direta.

Ambos dependem de: território, pessoas, técnica, projeto, cadeia, narrativa e trabalho duro e constante.

E mais:

Não se copia um samba-enredo, nem uma barra de chocolate bean to bar.
Não se copia um território, nem um terroir. 
Não se copia um sistema cultural, nem uma narrativa de uma marca. 

Cacau e chocolate do Brasil — quando tratados com inteligência de cadeia, leitura cultural e excelência técnica — não competem por preço, mas podem se destacar por identidade. 


Apenas finalizando esta minha reflexão: Essa não é uma visão poética nem sobre o Carnaval, nem sobre Cacau e Chocolate. é uma chamada para prestarmos atenção no que está ocorrendo em nosso território e como está a definição de nossa identidade como o pais produtor.


Fontes técnicas que embasam esta reflexão

  1. Flora do Brasil 2020 – Inventário taxonômico das espécies nativas brasileiras:
    ✔ Base para números por bioma e total de espécies nativas.

  2. Inventários etnobotânicos de frutos nativos brasileiros – Estudos acadêmicos que listam espécies frutíferas com uso alimentar humano:
    PubMed / PMC — levantamento científico histórico.

  3. Lista de espécies alimentares prioritárias da sociobiodiversidade brasileira
    Ministério da Agricultura (gov.br) — lista oficial de frutas, castanhas e verduras nativas com potencial de cadeia produtiva.


por 

Juliana Recuero Ustra
Chocolate no Brasil
em 18/02/2026


obs: imagens de Juliana Ustra, durante o Carnaval 2026. 

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Entre em contato: chocolate@ustra.com.br
Siga: @chocolatenobrasil
Ouça a playlist da Expedição Cacau e Chocolate do Brasil no Spotify.

Leia a Carta Aberta da Expedição:



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Besides both starting with the letter C, we have much more in common.

In Brazil, there seems to be an almost automatic division:
those who love Carnival — and those who run away from it.

I will not go into the reasons behind each profile, because that is not the focus of my discussion.
What truly interests me is observing the system that is built around what is one of the greatest cultural experiences in the country.

Because Carnival is not an event.
It is an ecosystem.

During this period, everything changes: people move across the country, tourism flows increase, hotels fill up, multiple services are activated — food, fashion, music, scenography, costumes, design, logistics, media, the creative economy — and, above all, specialized work.

An entire value chain operates so that, for a few days, the country can deliver, with precision, more color, sparkle, texture, rhythm, identity and memory — and, for that first group, fun.

And when I think about accessories, for example — without any romanticization — I immediately remember the invisible productive base that sustains this spectacle: countless artisans, suppliers of beads, fabrics, trims, paints, embroidery, printing, sewing, assembly, creation and finishing.

Nothing there is improvised.
It is a project designed and executed over many months, in order to surpass the success of the previous year.

And it is exactly at this point that I pause — and think about cocoa and chocolate in Brazil.

What does this have to do with chocolate?

More than it seems.

Pay attention to the similarities between the production chains of Carnival, cocoa and chocolate:

There, we have accessories, sparkle, applications and layers of color.
Here, we have inclusions, formulations, sensations, flavors, notes, colors and other sensory elements.

There, we see abadás, costumes and outfits.
Here, we see packaging, labels, boxes, ribbons, colors and the entire visual architecture of brands.

There are samba schools.
Here, chocolate brands.

When we talk about parade sections (alas),
here we can think of limited editions of special chocolates or even cocoa harvests with unique characteristics.

There are Carnival artisans.
Here, we have cocoa producers, chocolate makers and confectioners.

When we think about the definition of territory and inspiration for the parade themes,
I can only think of cocoa terroir.

If we listen to the samba-enredo,
here we can think that each brand has its own narrative, trajectory and history.

None of this is a coincidence.

Both in Carnival and in chocolate, what sustains value is not the final spectacle — or a single chocolate bar.
It is the organized intelligence of each of these production chains.

And here I want to be very direct:

“Brazilian cocoa and chocolate are much more than food.
They are the infrastructure of a cultural heritage and an economic force for Brazil.”

The country has around 90,000 cocoa producers.
Read this sentence carefully.

And this forces us to reflect on something that rarely enters the strategic debate of brands:

“What is the point of importing cocoa from other countries while we weaken the value of Brazilian cocoa in the domestic market?”
Read the current news about imported cocoa in February 2026.

This is a discussion about value chains, reputation and the sustainability of the chain in its main pillars — economic, environmental and social.
Just as a reminder: when the market fixes an unfair price for cocoa, it is the 90,000 Brazilian producers who lose sleep, face severe financial hardship and risk seeing their businesses collapse.

Let us go further in this reflection:
Brazil is not strong only because it produces cocoa.
It is strong because it sustains one of the greatest food heritages on the planet.

And here I speak based on technical data, from a brief research effort:

– there are at least 557 species of fruit trees used as food in Brazil (considering native and exotic species documented in ethnobotanical studies);
– approximately 448 of these species are native;
– public sociobiodiversity programs already recognize dozens of native fruits, nuts, seeds, vegetables and food species with direct productive-chain potential.

When we look by biome — Amazon, Cerrado, Atlantic Forest, Caatinga, Pantanal and Pampa — the numbers multiply in fruits, oilseeds, nuts, aromatic plants and condiment species.

We are not talking about information that serves only as a botanical curiosity.
We are talking about a real foundation for food, gastronomic and sensory innovation — and, beyond that, a foundation for countless businesses and, undoubtedly, for extraordinary experiences.

Brazil holds one of the greatest food biodiversities on the planet, with tens of thousands of plant species, hundreds of edible fruits, dozens of nuts and seeds, and an enormous diversity of aromatic plants and condiments distributed across all biomes.

In chocolate terms, this is brutally impactful — and I would like us to think together about how strategic it is to be able to work with ingredients that exist in diversity and abundance within our own country.

Because this means that Brazil does not have only cocoa.
Our country has colors, acidity, sweetness, aromas, oils, spices, resins, seeds, fresh fruits, dried fruits, infusions and extracts capable of building a powerful and genuinely Brazilian sensory language for chocolate.

Just as in Carnival, where we see almost infinite combinations of materials, textures and colors, Brazil offers an almost inexhaustible repertoire for authorial formulations.

And here is a provocation I always bring to brands:

“How much of what is in your product today truly moves the Brazilian food economy?”

Because there is a huge difference between using the discourse of Brazilianness —
and actually activating Brazilian food heritage as a product strategy.

Once again, Carnival made me observe the ecosystem that forms around it.

And the similarity with the universe of Brazilian cocoa and chocolate is direct.

Both depend on territory, people, technique, project design, value chains, narrative, and hard, consistent work.

And more than that:

You cannot copy a samba-enredo — nor a bean-to-bar chocolate.
You cannot copy a territory — nor a terroir.
You cannot copy a cultural system — nor a brand narrative.

Brazilian cocoa and chocolate — when treated with chain intelligence, cultural reading and technical excellence — do not compete on price.
They can stand out through identity.

To conclude this reflection:
this is not a poetic view of Carnival, nor of cocoa and chocolate.
It is a call to pay attention to what is happening in our territory and to how our identity as a producing country is being shaped.

Technical sources supporting this reflection

Flora do Brasil 2020 – Taxonomic inventory of native Brazilian species
https://floradobrasil.jbrj.gov.br/
✔ Basis for figures by biome and total number of native species.

Ethnobotanical inventories of native Brazilian fruits – academic studies listing fruit species used as human food.
PubMed / PMC – historical scientific surveys.

List of priority food species of Brazilian sociobiodiversity
Ministry of Agriculture (gov.br) – official list of native fruits, nuts and vegetables with productive-chain potential.

by
Juliana Recuero Ustra
Chocolate no Brasil
18/02/2026

Note: images by Juliana Ustra, during Carnival 2026.

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Contact: chocolate@ustra.com.br
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Read the Open Letter of the Expedition:
https://chocolatenobrasil.blogspot.com/2025/07/carta-aberta-expedicao-cacau-e.html

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